UMA VIDA

Rosa observa a Júlio sobre a reflexão das coisas…

_ Meu querido, vamos colocar desta forma: uma vez ouvi contar que um homem, um pobre mendigo – digo “pobre mendigo”, pois há mendigos ricos também – foi pedir comida. A dona da casa apiedou-se: dar-lhe-ei comida e, se quiser algum trabalho, há lenha para cortar. Pagar-lhe-ei por isso. Então o homem trabalhou cortando a lenha e, à tarde, quando já ia embora, a dona da casa disse: há um furo em sua roupa. Deixe que eu costure num instante. O homem: não, um furo em minha roupa faz toda a diferença. Quando se tem uma roupa costurada, é uma pobreza premeditada; quando você tem um furo em sua roupa, isto pode ter acontecido neste momento, acidentalmente. Mas, se tens um remendo, o furo parece antigo, não pode ter acontecido agora, aconteceu muito antes e agora foi costurado e remendado. Torna-se pobreza premeditada. Deixe que minha pobreza seja espontânea.

_ É de uma audácia triste e pensativa essa história, mamãe.

_ Olá, querida. Não a vi por aqui. Acredito a minha menina ter parado ao sentir o tom narrativo que assumi, hum? Embora o dia comece no sopro lívido da manhã, deitado sob o concentrado brilho do céu, fora pelos atalhos dos pensamentos de meu pai que mamãe resolveu caminhar.

_ Abordei o tema do pobre mendigo numa tentativa de apagar o cinza das horas; ilustrar ao papai como a mente é uma pobreza premeditada: tem todas as respostas e ao mesmo tempo não tem nenhuma. Minha mãe, abraçada pela eloquência, espelhada no corpo esguio de tez amplamente clara, vive o paradoxo: esconde-se entrelinhas onde apenas a ficção a encontra. Escreve gritando por dentro da palavra num seu espírito questionador, transfigurando o óbvio. É aqui conosco que desdobra e remonta o grande texto, para transcendermos, simultâneos, em sua intensidade.

_ Se você já decidiu o que fazer, nessa decisão, você se matou, cometeu suicídio. A mente é suicida. Quero compartilhar o sentimento de que o agir espontâneo é viver livremente. É difícil no início, sente-se muito desconforto. Com a resposta premeditada há menos desconforto, e você se sente mais seguro. Por que não somos espontâneos?

Sentada ao lado, entremeando papai e eu, mamãe inspira pensamento exalando a meiguice dura da palavra. Era casta semente na minha literatura. E para meu pai, essa era a claridade doce que o deixava perpétuo em sua existência.

_ Por causa do medo. Medo de que a resposta possa estar errada. Assim, decide-se antecipadamente, sentindo-se seguro. Mas a certeza pertence à morte. Lembrem-se: a vida é sempre incerta. Tudo o que está morto é certo; a vida é sempre incerta. Tudo o que está morto é sólido, fixo, sua natureza não pode ser mudada; tudo o que está vivo muda e se movimenta, é fluido, líquido, flexível, capaz de se mover em qualquer direção. E arrematou:

_ Quanto mais você se torna seguro, mais está perdendo a vida.

_ Vou para o lado de lá brincar de igreja com minhas amigas, mamãe.

Aqui era o lugar preferido de meus pais, à sombra da gameleira que ambos haviam semeado assim que na casa vieram morar. Eu não fazia parte de seus planos, até porque minha mãe nada planejava, apenas vivia a fluidez líquida e flexível da vida. A casa grande, já comprada sobre seus baldrames em pedra, foi com o tempo figurando-se no contorno da nossa certeza: uma graça firme e leve.

Atravessei o caminho num alvoroço úmido escutando o ruído fresco que vinha do fundo do casarão e enchia meu dia de perplexidade.

_ Oi, papai. Veio nos ver brincar?

_ Fiquei curioso em saber como seria brincar de igreja. Mas vejo que estão sentadas nesta escada, sem fazer nada… . Que tipo de igreja é esta?

_ Nós já cantamos, pregamos e rezamos. Fizemos tudo direitinho. Agora estamos sentadas nos degraus fumando.

Naquele momento meu pai se desvencilhou da velhice. Observou-nos com olhos conclusivos de um encanto fácil. Sentiu-se criança, o rosto acordava num ser espontâneo. A face afinada em claridade adiantava-se num impulso livre e assustado com a sensação de se viver algo novo, sem respostas, sem experiência acumulada. Aquela manhã extasiada ia se propagando através do olhar pueril de quem já não tem mais memória. Ele abria seus grandes olhos e toda a casa flutuava. O jardim, a planície, a mataria rebrilhavam em pequenos sons e um calor lúcido insuflou-lhe a carne do corpo elevando-o à criança que age. Qualquer coisa que passe ao seu redor, faz com que aja. E brincamos todos rindo, pulando, animados, sentindo a realidade flutuando como verdade.

Um grito fresco de café subia lá da cozinha entrelaçando-se com o ruído alegre dos passos de mamãe Rosa. E os dois nos chegam em aromas hesitantes de desejo. Ao redor da mesa de café conversaríamos com olhos brilhando em rápidas compreensões.

_ Consigo ler em sua expressão cheia de vigor o pensamento: espontaneidade é a chave para o prazer.
Semântica colorida das letras do mendigo, decifrada na pose calma de mamãe. E rememorou o passado nem tão longínquo de meu pai enquanto funcionário público na prefeitura local de Cidade Nova, para uma vez mais vivermos a pobreza premeditada do mendigo.

_ Diga, Júlio, à nossa Clara e amigas como era a vida para você naquela instituição. Meu pai, meditando no eco das palavras assim soltas, distraiu minúscula cólera no rosto quieto e magro. Balbuciou:

_ A vida naquela época era uma instituição, um manicômio onde os deveres têm de ser cumprido, não o amor. Onde você tem de se comportar, não ser espontâneo. Onde um padrão tem de ser seguido, apagando a exuberância de vida, de energia. O que há de fato é muito investimento na falsidade, nas máscaras, nas caras, nos jogos. Sobrevive-se livor mortis.

Papai, que passou a assistir Cidade Nova redefinindo-a brilhando à luz dos pincéis, era de pouca fala. Sua expressão, porém, não restava contida nos quadros espalhados em galerias pelo mundo, nem tampouco nos que habitam o casarão. Findado o pensamento no passado que procurava entender, sua cabeça madura fitava-nos segura de amor e nesse mesmo instante o dia se renovava para mim. E o milagre era o movimento das coisas. Então assim falava mamãe:

_ A mente criou a sociedade e a sociedade criou a mente. Um longo minuto se desenrolava e tudo parecia rodar leve ao redor de nós, igual ao vento sobre as folhas do pátio. Dona Rosa não guardava vozes e dizia as palavras num som simples e fremente:

_ Quando Júlio decidiu-se filho em sua arte, renunciou a tudo o que não é autêntico, a todas as respostas. Mostrou-se sensível, espontaneamente sensível. Não pensava mais nas razões, mas sendo sempre real. Libertou-se das situações mortas impostas pela infeliz burocracia que uma sociedade insiste em conviver.
Era assim que a nossa casa, sempre nova e macia, transmutava seus baldrames para minha essência: eu era fruto de uma feliz união de seres autênticos. Aceitamos as consequências, quaisquer que sejam e vivemo-las no presente. Sacrificamos o futuro pelo presente, e não o presente pelo futuro.

Assim descobri a totalidade de meu ser, sem agir premeditadamente esperando resultados. Os resultados cuidam de si mesmos e nos seguem. Segui a vida intensa naquilo que escrevi e igualmente morria no que deixava de escrever. Cavei as areias das palavras onde hoje me deito perpétua e a minha escritura respira postumamente.

Conto

Ludmila Maurer
Jan 2013

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