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A experiência escolar como objeto de (re) criação literária

Flávio Aguiar e Og Doria (orgs.) São Paulo: Boitempo Editorial, 2009, 216 págs. ISBN 978-85-7559-114-7

O tema da evolução escolar é um dos mais instigantes para quem se arvora à condição de pesquisador. Se a ele se atrelar a literatura como fonte, abrem-se duas perspectivas: uma positiva, outra negativa. Com a primeira, pode-se ficar mais perto das demandas subjetivas inerentes à experiência em busca da aprendizagem. A segunda, contudo, advém justamente da utilização de depoimentos que escapam à condição de objetos concretos, já que se manifestam sob as condições fluidas da memória, da afetividade, do apego ou da rejeição.

Nesse sentido, torna-se mais que oportuna uma antologia em que são apresentados textos de gêneros textuais diversos, escritos por autores de tempos e espaços distintos, nos quais a importância da passagem pela escola ou seu valor como elemento cultural, tornam-se um contributo para que outras perspectivas de investigação possam ser abertas.

É o caso desta A escola e a letra (São Paulo: Boitempo Editorial, 2009), organizada por Flávio Aguiar e Og Doria. Nela, tem-se um apanhado de 49 autores que, ao longo de quatro séculos, deixaram registros sobre a escola brasileira. O princípio norteador foi o de não se ater somente à imagem padrão dos conflitos que permeiam a sala de aula, apresentando professor e alunos como principais agentes. Assim, o leitor é brindado com uma gama de assuntos bem variados, tais como educação doméstica, crítica ao bacharelismo, ao pedantismo, ao gramatiquês, ao conteúdo escolar, formação docente, educação e política, valor da leitura etc.

Esse périplo começa pelo período colonial, mas diante da conhecida escassez de registros literários nesse tempo, cabe a dois autores modernos o início dessa aventura: Murilo Mendes, com “Testemunho de Sumé”, e Jorge de lima com “Escola de Piratininga”. Os padres Anchieta e Antonio Vieira e poemas de Gregório de Matos e Francisco de Melo Franco, por meio de autos, sermões e sátiras, ajudam a preencher as lacunas, de uma época longínqua, muitas vezes preenchida pelas luzes do imaginário, no qual a presença da escola esteve na dependência principalmente das configurações religiosas, mormente as determinadas pela ação missionária da Companhia de Jesus.

Para cada texto escolhido, o organizador teve a sensibilidade de colocar algumas linhas explicativas ao final, o que contribui para a devida localização contextual de cada registro, além de reforçar o sentido eclético e o esforço de não reduzir os depoimentos a uma única vertente.

Na sequência, entremeiam-se representantes de estéticas literárias diferençadas, tais como Romantismo, Naturalismo, Realismo, Pré-Modernismo. Aqui desfilam nomes bastante conhecidos dessas configurações, tais como Joaquim Manuel, de Macedo, Castro Alves, Raul Pompéia, Aluísio Azevedo, Joaquim Nabuco, Machado de Assis. Cabe ao leitor o cuidado de perceber a necessidade da fragmentação com a qual se junta, na passagem entre o Segundo Império e a República, trechos de romance, um poema, um registro memorialístico e um conto. Nessa perspectiva, tem-se o registro de costumes estudantis, a experiência do colégio interno, a formação intelectual, a rejeição aos princípios escolares. Neste último aspecto, o conto “O caso da vara, de Machado de Assis continua exemplar. Nele , personagem central espelha o conflito da necessidade de ir à escola atrelada à vontades alheias à sua: “(…) o pai ficou furioso e quis quebrar tudo; bradou que não , senhor, que o peralta havia de ir para o seminário, ou então metia-o no Aljube ou na presiganga.” (p. 59). Esse quadro é complementado com Adolfo Caminha, Arthur Azevedo, Olavo Bilac, Lima Barreto e Monteiro Lobato. Este, com o memorável “O colocador de Pronomes”, uma crítica ácida ao pedantismo, não só ao da sua, mas ao de qualquer época.

A parte mais quantitativa, portanto, ficou a cargo dos chamados autores modernos e contemporâneos. Sob o efeito dos novos pressupostos estéticos solidificados a partir da Semana de Arte Moderna, a escola não ficará imune às baterias de tantos nomes, ora marcados pela irreverência desabrida de um Oswald de Andrade quanto à formação escolar; a crítica mordaz de Antônio de Alcântara Machado sobre a perda da capacidade política do estudante, em “A esperança da pátria”: “A desgraçada politiquice acabou de vez com famosa solidariedade acadêmica” (p. 86); a imbricação, para Mário de Andrade, entre educação e sexualidade no seu Amar, verbo intransitivo; a crítica atualíssima de Carlos Drummond de Andrade que, numa crônica de 1930, chamava a atenção para a praga dos testes objetivos, assimilada até há pouco tempo, entre nós, como uma espécie de panacéia pedagógica. Nessa mesma perspectiva, ressalta-se a atualidade de outro tema espinhoso na realidade social brasileira, no tocante aos descuidos com a infância. Para mostrar como o problema vem de longe, temos os meninos de rua em Capitães de Areia, obra de Jorge Amado publicada em 1937.

Este tema é seguido por outros de não menor importância, tais como: o primeiro dia da aula em uma região inóspita e distante (Cyro Martins); as agonias da alfabetização (Graciliano Ramos); paixão entre professor e aluna (Cyro dos Anjos); estranhamento e aproximação entre professor e aluna (Clarice Lispector); a sedução do aprendizado de uma língua estrangeira (Rubem Braga); comercialização do ensino (Luis Fernando Veríssimo e Moacyr Scliar) etc. Cumpre-se, assim, o objetivo dos organizadores em abranger quatro períodos históricos brasileiros: os povos nativos, os tempos coloniais, o Império, a República, atentos à “reiteração de algumas constantes” (p.9), apesar do amplo mosaico resultante da abordagem do tema escolar feita por tantos representantes na história da literatura brasileira.

Sabe-se que toda antologia está sujeita a “lacunas e falhas”, como atesta Flávio Aguiar no “Prefácio”, algumas delas independentes de sua vontade, tais como a impossibilidade de publicação de alguns textos devido a problemas com herdeiros dos autores, casas editoriais, agentes literários ou escritórios de advocacia” (p.13). Como se trata da primeira edição, espera-se que esses não sejam os motivos para a ausência de algumas das mais de cem páginas que o memorialista Pedro Nava escreveu como aluno interno dos colégios Anglo Mineiro, em Belo Horizonte, e Pedro II, no Rio de Janeiro, nos livros Balão cativo e Chão de ferro. Na mesma perspectiva, caberia a inclusão de um dos 40 poemas que Carlos Drumm ond de Andrade legou, em Boitempo II, sobre a mesma experiência de Nava, mas em outras instituições: os colégios Arnaldo, em Belo Horizonte, e Anchieta, em Nova Friburgo (RJ). No primeiro, também estudou Guimarães Rosa, cujo conto, “Pirlimpsiquice”, possivelmente inspirado naquele cenário, não entrou nessa edição devido a um dos problemas apontados acima.

Por fim, mais dois adendos. Pelo menos em relação a um dos textos aqui selecionados faríamos uma ressalva, pois achamos um tanto forçada à metáfora “vida igual à guerra”, “morte igual à aprendizagem” em relação ao texto “A escola do soldado”, de Boris Schnaiderman. O outro se refere ao uso dos recursos gráficos. Estes nem sempre são funcionais quando se observa algumas pirotecnias de cores e formas que ilustram alguns textos. Dois exemplos dessa dificuldade: “Fabrício em apuros”, de Joaquim Manuel de Macedo e “Os desastres de Sofia”, de Clarice Lispector. Este praticamente ilegível para quem não estiver com os olhos saudáveis. No mais, é comemorar a chegada deste material ao campo da investigação pedagÍ gica. Com ele, acrescentam-se mais uns tijolos à imensa construção, ainda a caminho, para se dar o devido valor, pelo menos do ponto de vista histórico, a uma das instituições basilares para o processo civilizacional brasileiro. Nota 10!

Jeová Santana
Professor de Literatura Brasileira e Crítica Literária na Universidade Estadual de Alagoas, doutorando no Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História, Política, Sociedade da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Brasil).
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