A linguagem veio do desejo de transcender um isolamento e ter ligação com o outro. Por mais que as experiências nossas sejam indescritíveis, quando nos comunicamos uns com os outros sentimo-nos conectados e sendo compreendidos numa quase espiritual comunhão.

Como podemos pensar a linguagem na sociedade contemporânea: estaria mais para a necessidade de socialização – suprida pela fala, ou para a expressão individual do homem – representada pela escrita? De qualquer forma, e segundo Bakhtin, a linguagem é dialógica, pressupondo sempre um outro. Por assim se dizer, e situando-nos num parâmetro cultural de cinco mil diferentes línguas, sendo que apenas quinhentas dessas culturas possuem grafia, podemos sublinhar um equívoco no pensamento que caracteriza o indivíduo primando-o por sua habilidade na escrita pondo à margem os iletrados.

Insistir nessa forma de avaliação é deixar de lado marcas de individualidade presentes na fala, não presentes num texto escrito. Há características singulares de expressão refletidas na fala, que denotam a importância de inclusão de uma comunidade ágrafa, e há relevância da forma escrita quando consideramo-la para além de um instrumento, como meio que desenvolve, realiza o pensamento (Higounet, Charles; 2003).

Ponto de partida para observação da escrita na sociedade contemporânea; seu desenvolvimento; sua realização. Quando pesquisadores já citaram a humanidade ser dividida em antes e depois da escrita, tudo leva a crer ser a era digital uma terceira era, pós-escrita (Higounet, Charles; 2003). E pensar essa revolução digital nos trás aos seguintes argumentos: a) resgate da escrita, até então tida como relegada pela introdução de aparatos, no final do séc. XIX e início séc. XX, tais como rádio, telefone, televisão, entre outros; b) a linguagem de um ímpeto de transcendência devolve ao homem hipermoderno o fundo de um labirinto de solidão, escondido sob a forma de integração globalizada.

Ao ressaltamos ser a nossa sociedade grafocêntrica e sugerirmos o resgate da escrita nessa era digital, como, de fato, se colabora para a fixação, hoje, da linguagem articulada? O mundo virtual recuperou a escrita em conjunto com imagens, sem uma superfície de registro material. A observação salta para a desnecessidade da escrita formal, para a redução da familiaridade com a escrita mais expandida, para a não-solidão do indivíduo no sentido de interiorização e maior expressão – crítica. Suas funções hoje parecem não alcançar a memória (repositório de conhecimentos) do leitor virtual: a escrita/leitura internáutica não proporciona o prazer das inferências, responsáveis pela compreensão, pelo que lembraremos mais tarde. Logo, a escrita não será refletida na fala de maneira concebida a uma pessoa letrada nem tampouco se tornará autônoma da fala.

A escrita hoje perde a referência do caráter individual do homem, do pensamento profundo para o imperativo da sociabilidade. Alguns valores culturais podem, certamente, ser passados pela tradição oral numa comunidade, mas o pensamento mais complexo, se deixado somente por essa divisão da linguagem – a fala – se perderá. A escrita é por excelência o meio para o pensamento organizado, desenvolvido, para sua eternização.

Nossa sociedade urge pelo pensamento sobre estar a informação cada vez mais ao nosso alcance. Mas a sabedoria, que é o tipo mais precioso de conhecimento, só pode ser encontrada em autores da literatura.Todo bom pensamento depende da memória. Não é possível pensar sem lembrar – e são os livros que ainda preservam a maior parte de nossa herança cultural.

Podemos ousar e dizer que o olho vê, a lembrança revê e a escrita transvê (Manoel de Barros)?

Ludmila Maurer

Reflexões sobre fala, escrita e ensino, parte integrante da Coleção Luiz Antonio Marcuschi, iniciativa do Programa de Pós-Graduação em Letras.

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