Filmagens de ‘Faroeste caboclo’, saga do anti-herói criado por Renato Russo, movimentam Brasília

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BRASÍLIA – Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu, João de Santo Cristo deixou para trás todo o marasmo e vai passar a Páscoa num set de filmagem com fôlego de superprodução, onde “Faroeste caboclo” está sendo gestado. Com Fabrício Boliveira, de “400 contra 1″ (2010), no papel do bandido destemido e temido no Distrito Federal, a versão para as telas da canção de tintas épicas composta e gravada por Renato Russo (1960-1996) e sua Legião Urbana começa a sair do papel em pleno coração político do país, com o estreante em longas-metragens René Sampaio à frente da direção.

- Por ser de Peixes com ascendente em Escorpião, como diz a música, João de Santo Cristo tem o ímpeto de fazer com que seus desejos continuem seguindo em frente, mas acaba caindo nas ciladas da vida. É o mito do brasileiro que tenta, e cuja sorte pode mudar ao sabor de uma decisão – diz Boliveira, que na primeira semana de “Faroeste caboclo” rodou uma tensa sequência de perseguição, em que Santo Cristo foge dos policiais corruptos comandados pelo tira Marco Aurélio, personagem de Antonio Calloni.

Escrito por Marcos Bernstein e Victor Atherino, com consultoria do escritor Paulo Lins, de “Cidade de Deus”, o roteiro ambienta a ação – tiroteios, perseguições, duelos – entre 1979 e 1981. Assim como René, a atriz Isis Valverde também debuta no formato longa, no papel de Maria Lúcia, menina linda para quem Santo Cristo jurou seu amor.
- Maria Lúcia vive como se estivesse num mar à deriva. João seria uma espécie de barco que ela vê ao longe – explica a atriz.

” Por ser de Peixes com ascendente em Escorpião, como diz a música, João de Santo Cristo tem o ímpeto de fazer com que seus desejos continuem seguindo em frente, mas acaba caindo nas ciladas da vida. É o mito do brasileiro que tenta, e cuja sorte pode mudar ao sabor de uma decisão ”
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Ao todo, 30 atores, quase 300 figurantes e 120 técnicos integram a produção, cujo orçamento é de R$ 6 milhões, incluindo o lançamento. Na madrugada de quinta-feira, num casarão do Lago Sul de Brasília, René rodou a cena em que Santo Cristo encontra Jeremias (Felipe Abib), maconheiro sem-vergonha que desvirginava mocinhas inocentes e se dizia crente mas não sabia rezar.

- Jeremias é o jovem burguês que não tem um pensamento sobre a cidade onde vive – diz Abib, ostentando um bigodón digno dos pistoleiros dos filmes de Sam Peckinpah. – Tudo em Jeremias envolve a falta de limite.

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Vem das batidas empreendidas pelo personagem de Calloni a erva que engorda os bolsos de Jeremias, graças a consumidores fiéis como Beto (Rodrigo Pandolfo). Na trama, conforme Santo Cristo se estabelece, oferecendo “bagulho bom” à clientela do rival, Jeremias vê seu controle sobre o tráfico diminuir e seu ódio aumentar. Sua fúria é vitaminada pela cobiça por Maria Lúcia, filha do senador Ney (Marcos Paulo).

Além de “Faroeste caboclo”, outras duas canções acabam de virar filme: Karim Aïnouz fez “O abismo prateado” a partir de “Olhos nos olhos”, de Chico Buarque, e Maurice Capovilla filmou “Nervos de aço”, de Lupicínio Rodrigues.

- Só faria sentido filmar essa música num Distrito Federal em formação, com chão de terra vermelha, cheio de poeira e secura. O que tem de western em “Faroeste caboclo” é que o bangue-bangue, como gênero, trabalha com o arquétipo do personagem solitário como protagonista e mostra cidades em construção. Ah! E tem duelos… A filmagem da entrada de Santo Cristo numa festa na casa de Jeremias é quase uma daquelas cenas de saloon em que o mocinho entra e a galera diz: “You are a stranger!” – explica René, brasiliense de 37 anos cujo currículo de quase 400 filmes publicitários divide lugar com os curtas-metragens “Antes do fim” (1997), “Sinistro” (2000) e “O homem” (2007).

- As primeiras músicas que eu toquei ao violão eram da Legião Urbana. Eu curto Renato Russo, mas não estou fazendo este longa só para seus fãs. Estou tentando fazer um filme bom. E se sair bom, pode agradar a todos os públicos.
” ‘Faroeste caboclo’ é a descoberta de que o Eldorado brasileiro é uma cidade como outra qualquer ”
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Conjugando as produtoras Gávea Filmes, República Pureza, Fogo Cerrado e Fulano Filmes, “Faroeste caboclo”, cuja distribuição será da Europa Filmes, tem ainda sete semanas de filmagem pela frente. Paralelamente às tomadas rodadas nas cercanias da Esplanada dos Ministérios, onde René vai passar o domingo de Páscoa filmando, uma cidade cenográfica está sendo construída no bairro de Jardim ABC, na divisa com Goiás, reproduzindo a Ceilândia dos anos 1980. Na preparação do elenco, coordenada por Sérgio Penna, Boliveira chegou a trabalhar na construção da Ceilândia cenográfica.

- “Faroeste caboclo” é a descoberta de que o Eldorado brasileiro é uma cidade como outra qualquer – diz o produtor Marcello Maia, de “Amarelo manga” (2002) e “Moacyr arte bruta” (2005), que coordenava o set ao lado da também produtora Bianca De Felippes (”Carlota Joaquina”). – A terra de oportunidades para onde Santo Cristo vai separa ricos de pobres.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2011/04/22/filmagens-de-faroeste-caboclo-saga-do-anti-heroi-criado-por-renato-russo-movimentam-brasilia-924301020.asp#ixzz1KLoe8qYl
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Pai e filha

Morte imorredoura na lembrança imortal.

Meu pai, ensinando-me a experienciar a vida, traz-me à margem dum rio de que gostaria eu me afastar, para o outro lado atravessar e junto a meu pai continuar.

A roda da vida linearmente me situa num tempo distante do meu desejo de naquela margem encontrar-me.
Minha referência perdida não ficará, e a experiência de vida, ensinada e sentida, pela vida atravessará naqueles que meu pai parece não há de falar.

O rio seca, a margem de lá se aproxima, mas é ainda na lembrança que hei-o de abraçar.