Unesp lança 50 livros digitais gratuitos
bibliotelevisão

A partir desta quarta-feira (27/4), a Universidade Estadual Paulista (Unesp) disponibilizará gratuitamente 50 novos livros digitais. Segundo as responsáveis pela iniciativa, a Editora Unesp e a Pró-Reitoria de Pós-Graduação, os títulos integram o selo Cultura Acadêmica (lançado em 1987, o segundo da Fundação Editora da Unesp) e dão continuidade à Coleção Propg Digital, que oferece obras inéditas para download.

Após o lançamento, cujo início está previsto para as 9h, os autores concederão entrevistas individuais para a Web TV, projeto da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da universidade. Cada entrevista terá 15 minutos e será dividida em dois blocos, sendo o primeiro das 11h30 às 12h30, e o segundo, das 14h às 17h.

A coleção teve sua primeira fase em 2010, quando foram lançadas 44 obras. Desde então, foram registrados mais de 50 mil downloads e cerca de 205 mil acessos.

Segundo os organizadores, a meta do projeto é publicar mil títulos em dez anos, permitindo maior acesso à produção acadêmica da Unesp.

A Editora Unesp fica na Praça da Sé, 108, no Centro de São Paulo. O lançamento da Coleção Propg Digital será no 7º andar do auditório.

A Web TV também fará a transmissão ao vivo do lançamento pelo endereço: www.unesp.br/tv.

Agência FAPESP

Venda de Livros: um negócio que cresce nas ruas de Luanda

Luanda e livros

Luanda – A venda de livros na província de Luanda, especialmente os didático-literários, há muito deixou de ser atividade exclusiva das livrarias oficiais.

Em várias artérias da capital do país é cada vez mais visível a figura dos alfarrabistas, profissionais eficientes na distribuição e comercialização de raridades literárias, cujo negócio se propaga, em alguns casos pontuais, sem a devida anuência das autoridades.

O comércio atrai diariamente dezenas de estudantes do ensino médio e superior, mas está ainda longe de assegurar os mesmos lucros de uma livraria. Porém, vem sendo impulsionado com sacrifício, desde a década de 80, por cidadãos apaixonados pela leitura, como João Antônio de Carvalho, profissional do ramo desde 1986.

Como ele, outros espalham-se pela cidade adentro, fazendo do livro um instrumento de troca, atividade muitas vezes frustrante para quem teima em tocar o negócio isoladamente, sem aliar-se à futura Associação dos Alfarrabistas, Leitores e Expositores de Angola.

A vida no terreno é dura, mas a esperança em dias melhores toma conta de quem abraçou a profissão para engrandecer a cultura e ajudar a erradicar o analfabetismo, como conta à reportagem da Angop o veterano João de Carvalho, um intelectual “escondido” nas ruas.

Aos 47 anos de idade, 23 dos quais como alfarrabista, ele diz-se orgulhoso da atividade e, numa conversa amena, ajuda-nos a compreender o dia-a-dia da classe. As lentes grossas de um par de óculos cansado de ler, o volume de papéis debaixo dos braços e os prematuros cabelos brancos em abundância denunciam-lhe a sabedoria. Os primeiros momentos são de tensão e alguma desconfiança ao ver o microfone chegar-lhe à boca, mas o desejo de expor as dificuldades, lembrar dos primeiros passos, falar das aspirações e dos ganhos de um alfarrabista fazem de si um interlocutor à altura.

João de Carvalho já não vende pessoalmente os livros, ao ar livre. É dono de uma bancada, nos arredores do mercado dos Congolenses, município do Rangel, onde três jovens cuidam-lhe do negócio, enquanto trata de assuntos inerentes à associação. A pouco mais de 200 metros do seu espaço, outras duas bancadas disponibilizam esse mesmo produto cultural, exposto ao sol e à poeira, mas somente ele, presidente da associação (A.A.L.E.A), está autorizado a falar sobre as peripécias da atividade.

Início do negócio

Experiente e determinado, explica como se iniciou na venda de livros e logo deixa escapar um dado interessante: “comecei com uma obra, mas em pouco tempo endividei-me, para comprar uma remessa de quase 200, consignadas por um cidadão português. Entrei para esse mundo porque a cidade de Luanda estava carente de livrarias, na década de 80. Num determinado dia, desloquei-me à Livraria Lello e encontrei vários trabalhos expostos. Chamou-me atenção algumas obras fechadas numa vitrina, tendo por baixo um letreiro com os dizeres livros guardados, dinheiro amealhado.

João de Carvalho explica que a reflexão em torno do slogan foi imediata. Todavia, a falta de verbas para concretizar o sonho, que nascera de uma leitura ocasional, viria retardar-lhe o processo por mais alguns anos: “Fiquei a meditar muito naquela frase encontrada e, a partir daí, passei a dedicar-me à compra e venda de livros nas ruas de Luanda. Comecei com apenas um. Conforme comprava, revendia os trabalhos, usando os lucros para a compra de mais produtos”.

Principais dificuldades

O alfarrabista é hoje uma referência para quem quer se iniciar nesse ramo, mas, ainda assim, não esconde a frustração por exercer a atividade em condições precárias.
João diz-se bem servido em termos de acervo, tendo atualmente mais de 500 livros, parte de uma coleção inicial de quase dois mil. Algumas dessas obras, como Roteiro da Literatura Angolana, de Carlos Ervedosa, e Etnias e Culturas de Angola, de José Redinha, são já praticamente inexistentes nas livrarias do país, assegura.

João de Carvalho reconhece que a atividade tende a crescer, tornando-se aos poucos mais conhecida do público, mas julga já terem dado mostras de seriedade suficientes para exercer a profissão em lugares dignos, onde possam vender e conservar adequadamente os livros. Vender ao ar livre, exposto ao pó, sol e em alguns casos à chuva, é para o comerciante uma das principais dificuldades a solucionar pelas autoridades, de quem confessa receber alguns apoios pontuais, sobretudo convites para expor em atividades de vulto. Para conservar os livros, explica, são obrigados a usar produtos químicos, como naftalina, de forma a diminuírem a quantidade de pó e evitarem a invasão de insetos como baratas.

“Algumas pessoas desdenham-nos porque ainda trabalhamos ao ar livre. Estamos a lutar para exercer a atividade em espaços físicos dignos”, lamenta o alfarrabista, que diz estarem autorizados a vender na rua.
O profissional esclarece que nem todos podem fazê-lo com a mesma facilidade. Para evitar interferências da fiscalização, o alfarrabista deve estar ligado à associação.

Procedência dos livros

Os livros do alfarrabista vão à venda de segunda-feira a sábado. Ele oferece produtos diversos, principalmente obras literárias e acadêmicas. Grande parte do material pode ser encontrado nas livrarias, em estado novo, mas este afirma ter alguns exclusivos. “A maioria dos livros podem ser encontrados nas livrarias. Mas tenho aqui na bancada alguns que, dificilmente, o cliente encontra noutros sítios. São produtos usados, porém de grande valor e difíceis de adquirir. Por isso é que os clientes compram”, explica.

Na sua bancada podem ser encontrados igualmente livros acadêmicos, como gramáticas, dicionários e enciclopédias, que diz ter comprado, maioritariamente, de cidadãos em dificuldades financeiras. Estes usam o produto como moeda de troca, para saldar dívidas.

Preços praticados

À semelhança das livrarias, os preços dos alfarrabistas são em função da obra, do editor, escritor e da procura. Mas, nesse caso, um detalhe faz a diferença: o estado de conservação. Eles expõem de tudo um pouco, desde os literários aos didáticos, sendo esta segunda classe a mais procurada, sobretudo por estudantes do ensino médio e superior. Na bancada de João de Carvalho e demais colegas de profissão, o cliente pode encontrar algumas raridades vendidas a preços superiores aos de uma livraria embora grande parte dos produtos tenha um custo menor. A grande vantagem é a possibilidade de negociação.

“Tio João”, como é conhecido, afirma que por mês podem comercializar entre 12 a 14 livros, dependendo da área e do movimento de cidadãos em volta do local de venda. O preço mínimo é de 700 kwanzas e pode não haver custos fixos para os produtos mais raros. Tudo depende da procura. Títulos como Os Lusíadas, de Luís de Camões, O Código da Vinci, de Dan Brown, O Príncipe, de Maquiavel, A República, de Platão, Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez, são de longe mais caros que os nacionais. Porém, um exemplar de Etnias e Culturas de Angola, de José Redinha, pode superá-los, em alguns casos, chegando a 30 mil kwanzas.

Na bancada de Antônio Hopoteca o cenário é o mesmo. Ele informa que o custo de cada material é fixado em função do autor, do estado de conservação e do índice de procura. Natural da província do Uíge, o alfarrabista de 44 anos desenvolve a atividade nos arredores do Largo do Kinaxixi, município da Ingombota, desde o ano 2000. Como o outro colega, também entrou no negócio devido às dificuldades sociais por que passou e a paixão pela leitura. Em seu espaço há muita variedade; os produtos mais caros são os acadêmicos, entre os quais livros de Direito, Matemática e Medicina, cujos preços podem chegar a 13 mil kwanzas.

Ambições e futuros passos

A venda de livros nas ruas de Luanda não é ainda um negócio do tipo industrial. O acervo é limitado, diferente das livrarias, onde podem ser encontrados aos milhares. Na capital, quase não existem empresas credenciadas para venda de livros antigos. Essa tarefa cabe aos ambulantes, alguns dos quais, como Antônio Hopoteca, dispostos a mudar de vida. Ele conta que antes de vender livros trabalhava na Escola Nacional do Comércio. Em determinado momento, teve necessidade de buscar outro negócio e, sem muito por onde escolher, optou pela venda desse valioso produto cultural. “Eu sempre gostei de livros, embora já não esteja na escola. Foi essa a razão de optar por esse negócio, com o qual posso conseguir pequenos lucros para sustentar a família. Há dias em que podemos vender alguma coisa, cinco a seis livros. Mas não é sempre”, confessa.

O negócio começou com alguns livros da sua própria biblioteca, sacrificados para garantir a subsistência da casa. Hopoteca lembra-se ainda do momento em que vendeu os produtos a pessoas interessadas, tendo este passo sido fundamental para descobrir os ganhos do negócio.

Diferente de João de Carvalho, ele não está inscrito na futura associação e, como tal, tem tido consequências. O profissional confessa que perdeu recentemente quase 700 livros, apreendidos pela fiscalização, razão porque assegura vir a fazer parte da A.A.L.E.A, para estar protegido. Com nove anos de atividade, diz-se capaz de exercer outras tarefas. Na sua mente germinam vários sonhos, sendo um deles trabalhar em livraria, onde possa demonstrar todo o aprendizado como alfarrabista – um comerciante que sofre para aproximar o cidadão do conhecimento.

Entrevista à Angop – Agência Angola Press – agência de notícias oficial do estado angolano.