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Já que hoje é o DIA NACIONAL DA POESIA, eis esse longo poema ( dos anos 70) que diz alguma coisa da nossa situação:

SOU UM DOS 999.999 POETAS DO PAÍS
Fragmento 1

(INTRODUÇÃO SÓCIO-INDIVIDUAL DO TEMA):

Sou um dos 999.999 poetas do país
que escrevem enquanto caminhões descem pesados de cereais
e celulose
ministros acertam o frete dos pinheiros
carreados em navios alimentados com o óleo
que o mais pobre pagará.
(- Estes são dados sociais
de que não quero falar, embora
tenha aprendido em manuais
que o escritor deve tomar o seu lugar na História
e o seu cotidiano alterar.)

Sou um dos 999.999 poetas do país
com mãe de olhos verdes e pai amulatado
ela – a força de áries na azáfama da casa
.a decisão do imigrante que veio se plantar
ele – capitão de milícias tocando flauta em meio
às balas
lendo salmos em Esperanto sobre a mesa
.domingueira.
(- Estes são sinais particulares
.que não quero remarcar, embora
tenha aprendido em manuais
.que o q ue distingüe a escrita do homem
são seus traços pessoais que ninguém pode
.imitar.)

Fragmento 2
DESENVOLVIMENTO HÁBIL E CONTÁBIL DO (P)R(O)BL(EMA) :

Sendo um dos 999.999 poetas do país
desses sou um dos 888.888
que tiveram Mário, Bandeira, Drummond,
Murilo, Cecília, Jorge e Vinícius como mestres
e pelas noites interioranas abriam suas obras
lendo e reescrevendo os versos deles nos meus versos
com deslumbrada afeição.

Desses sou um dos 777.777 poetas
que se ampliaram ao descobrir Neruda, Pessoa,
Petrarca, Eliot, Rilke, Whitman, Ronsard e Villon
em tradução ou não
e sem qualquer orientação iam curtindo
um bando de poetas menores/piores
que para mim foram maiores
pois me alimentavam com a in-possível poesia
e a derramada emoção.

Desses sou um dos 666.666 poetas
que fundando revistinhas e grupelhos aspiravam
(miudamente)
à glória erótica & literária
e misturando madrugadas, festas, citações, sonhos
……. de escritor maldito e o mito das gerações
depois da espreita aos suplementos
batem à porta do poeta nacional para entregar
poemas
(com a alma na mão)
esperando louvor e afeição.

Desses sou um dos 555.555
que um dia foram o melhor poeta de sua cidade
o melhor poeta de seu estado
dos melhores poetas jovens do país
e quando já se iam laureando aqui e ali em plena arcádia surpreenderam-se nauseados
e cobrindo-se de cinza retiraram-se para o deserto
a refazer a letra do silêncio
e o som da solidão.

Desses sou um dos 444.444 poetas
que depois da torrente de versos adolescentes e noturnos
se estuporaram per/vertidos nas vanguardas
e por mais de 20 anos não falamos de outra coisa
senão da morte do verso e da palavra e da vida do sinal
acreditando que a poesia tendia para o visual
e que no séc. XXI etc. e etc. e tal.

Desses sou um dos 333.333 poetas
que depois de tanto rigor, ardor, odor, horror
partiram para a impureza (consciente) das formas
podendo ou não rimar em ar e ão
procurando o avesso do aprendido
o contrário do ensinado
interessado não apenas em calar, mas em falar
não apenas em pensar, mas em sentir
não apenas em ver, mas contemplar
fugindo do falso novo como o diabo da cruz
porque nada há de mais pobre que o novo ovo de ouro
gerado por falsas galinhas prata.

Desses sou um dos 222.222 poetas
que penosamente descobriram que uma coisa
é fazer um verso, um poema ou mais
e receber os elogios médio-medianos dos amigos
e outra, bem outra, é ser poeta
e construir o projeto de uma obra
em que vida & texto se articulem
letra & sangue se misturem
.espaço & tempo se revelem
e que nesta matéria revém o dito bíblico
- muitos os chamados, poucos os escolhidos.

Desses sou um dos 111.111 professores
universitários ou não
que antes de tudo eram poetas-patetas-estetas-profetas
e que depois de ver e viver da obra alheia
estupefactos
descobrem que só poderiam/deveriam
sobreviver com a própria
.que escondem e renegam
por pudor
recalque
.e medo.

Sou um dos 999 poetas do país
que
sub/traídos dos 999.999
serão sempre 999 (anônimos) poetas
expulsos sistematicamente da República por Platão
que um dia pensaram em mudar a História com
…dois versos pena & espada
(o que deu certo ao tempo de Camões)
e que escrevendo páginas e páginas não mudaram nada senão de tinta e de endereço.
Mas foi dessa inspeção ao nada que aprenderam
que na poesia o nada se perde
… o nada se cria
… e o nada se transforma.

Affonso Romano de Sant’Anna

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O fim de semana na Bienal do Livro contou com a presença de inúmeros autores de livros em dezenas de sessão de autógrafos. Com eles, a festa se tornou completa para quem esteve no maior evento literário do País.

Foi difícil saber qual escritor atraiu mais fãs. As filas para autógrafos de Mauricio de Sousa e Ziraldo, por exemplo, começaram bem antes de ambos escritores sentarem à mesa para receber seus leitores.“O meu primeiro lançamento na Bienal do Livro de São Paulo foi em 1980. Sempre teve grande presença de público. Isso me satisfaz”, revela um dos principais autores da literatura infanto-juvenil brasileira.

Ele lembrou de Almir Klink, que afirmou certa vez ter despertado para a aventura depois de ler um livro seu com o personagem Pererê. Coincidência ou não, enquanto contava esta curiosa história, Laura, Tamara e Marininha Klink, as três filhas do navegador, terminavam no estande ao lado uma concorrida sessão de autógrafos do livro delas sobre a Antártica.

Mais adiante, o escritor Jostein Gaarder também atendeu ao público no estande de sua editora, depois de participar de palestra no Salão de Ideias. O norueguês relacionou a sua obra ao Brasil. “A minha literatura trata de ciência e espiritualidade. E aqui é um país da espiritualidade”, afirmou.

O jornalista Caco Barcellos participou de bate-papo no Território Livre. Sala cheia, deu dicas a dezenas de jovens que encheram a sala para ouvir um dos maiores repórteres brasileiros e também autor de alguns best-sellers. “A experiência de observar a realidade é muito rica. Essa é a essência da reportagem”, definiu a plateia seu trabalho.

Padre Marcelo foi outro que atraiu uma multidão à Bienal em sua sessão de autógrafos. Enquanto isso, o casal de escritores de livro infantil Moreno Aguilar e Marisa da Silva Moreno, que lançavam um livro em conjunto, exaltava a feira. “Eu escrevo poemas e já tive alguns deles publicados em antologia, mas livro mesmo, esse é o primeiro. É muito gostoso poder lançá-lo na Bienal, estamos muito entusiasmados”, exalta a mulher.

Ludmila Maurer comentou ser importante lançar seu livro, o ensaio filosófico “Máximas da Modernidade Tardia – um convite à reflexão”, no evento: é o local onde se concentram pessoas que fazem questão do pensamento; que têm a literatura como ser concreto representativo de uma ideia abstrata.

Sábado, 14 de agosto de 2010