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Numa certa manhã, acordei de sonhos intranquilos e a Receita Federal, por ordem de um honesto juiz paulistano, bloqueou R$ 18 mil e uns quebrados de uma velha conta-salário do Bradescão donde sempre estava devendo ao cheque especial etc.

Os idiotas esperaram a horinha certa para levarem meu suado dinheirinho de crônicas amorosas. Bando de pilantra, roubando o lirismo dos homens que amam.

Justo no dia que caiu uma laminha duns frilas, creu, pegaram, bando de fi de rapariga. Por que não pegam o auxílio-paletó do Senado, né, amigo e repórter João Valadares?

Não, jamais chamarei esses honestos senhores, que nunca bloquearam a conta do Sarney e de outras autoridades, de filhos da puta. Jamais. Perdão, ímpios e frios monstros. São grandes homens, mesmo que eles nunca tenham me avisado.

Jamais pegarão uma piaba ou um lambari do Crivela, só de babacas civis como nosostros.
Tudo bem, por não ter casa própria mudo sempre de endereço, como avisar quem está sempre mudando de canto igual cascavel de pele?. Eles estão cobertos de razão até os chifres. As correspondências não caíram na caixa postal das minhas não-casas, palhoças, cachoeiras da chapada do Araripe.

Eles me deixaram momentaneamente sem grana. Como nunca fizeram com os caras da privataria nem do mensalão, por exemplo. Deixa quieto, tá limpo.

Até botei advogado. E vou ter que catar papel de rescisões de lugares que me deram o cano, como na compra do Diario Popular pelas Organizações Globo etc, para citar apenas um exemplo midiático.
Não sei de quem diabo é a culpa, além da minha leseira de barnabé que não cuida direito das coisas. Caguei para o Fisco, caro Shakespeare. Só faltava eu ter que deixar minha cerveja gelada para preparar documentos idiotas.

Quem deve se prevenir disso tudo são os ladrões, não os homens que gastam tudo com as suas humildes existências e suas mulheres que precisam tomar ou comer uma coisinha decente –este é o meu grande gasto a descoberto.

Posso estar totalmente errado. E certo. Porque gatuno de fato estou longe de sê-lo. Só sei que são de sujeitos desleixados como eu que o Leão vai no rastro.

Como repórter investigativo estive atrás dos maiores devedores da República. Nunca vi bloquearem os centavos dos grandes sobrenomes.

Ah, levem essa disgrama pra vocês, babacas, repassem para as empreiteiras honestas, quem sabe para as obras do PAC ou da Copa. Botem na conta da OAS ou da Odebrecht, quem sabe da Queiroz Galvão. Desse povo honesto que nunca sonega, que nunca subcontrata gatos para a Transposição do São Francisco, para estas reservas morais que conheço até o caroço do olho.

Certamente me sobraram algumas moedas para tomar amanhã uma cerveja. Quem sabe aquela que o amigo Science já pregava. Aquela antes do almoço pra ficar pensando melhor.

Claro, que, como um Corisco, já já baterei em vossas portas. Se o Leão é forte, o cangaceirismo do Pajeu, donde vem minha destemida madre à cabidela , me encoraja para passar essas minhas mãos sujas e sartreanas em vossas caras. Me aguardem.

Boa quarta a todos. Se é que isso é possível. E desobediência civil para sempre, se é que vocês me entendem!

14 março 2012

Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha.

Receita de ano novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior),
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade