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O ponto de partida de José Morais em A Arte de Ler é por a “mão à pena” para transfigurar o óbvio: o analfabetismo (incluindo iletrados funcionais) universal e a carência de metodologias de ensino de comprometimento, para então denotar em seu rico trabalho científico o enriquecimento, a humanização advindos da leitura.

Dicionarizando arte como um conjunto de meios, de processos regulados que tendem para um determinado fim, a autor tem como foco justamente o fim em si mesmo: a compreensão da leitura, de seus processos, e a partir de sua aquisição, elaborar métodos de ensino e técnicas de reeducação adequadas.

Passeando pelo subtítulo que aborda a leitura como problema social, experimentamos o dissabor de estatísticas que comprovam em grande número, ainda hoje, a exclusão, a marginalização social – até porque desenvolvimento econômico é condicionado pela possibilidade que tem o homem ativo de tratar a informação escrita de maneira eficaz.

Se tomarmos como base a potência Japão e sua escrita em caracteres, que consideramos de difícil aprendizagem de leitura, como entender o fato de ser determinante mundialmente sua capacidade econômica? Acredita-se estar a base de seu crescimento nas crianças, porque vivem rodeadas de livros, revistas e textos em geral destinados especificamente a elas, e porque os pais, que não necessariamente se ocupam muito delas, reforçam-lhe a curiosidade natural respondendo com muito gosto todas as perguntas a respeito dos caracteres.

No decorrer dos subtítulos, salta aos olhos a importância da leitura como inclusão, como aquilo que nos traz à consciência, ou formação dela, acerca, por exemplo, do pensamento político, este que nos situa na sociedade, que nos impele a decisões críticas. Decisões que nos exige dispor de um conjunto de informações, e de evocá-las, escrita ou oralmente. Esbarramos no fato de correlação intrínseca entre compreensão da escrita e da linguagem oral: esta deve ser boa, não deficiente, para que a leitura, sua compreensão também o seja.

Qual seria, pois, o melhor método de ensino de leitura? Segundo Morais, uma das formas relevantes é ter um grupo docente mais qualificado, vide iniciarem sua carreira profissional sem qualquer conhecimento das capacidades básicas, das razões de sua importância e da maneira como elas podem ser ensinadas. Outra forma seria a de uma política educativa, ou reeducativa e até mesmo preventiva, que não se limite à escolha de um método único para toda a classe, evitando, assim, uma seleção cultural-sócio-econômica.

Obviamente que os pais não ficam à deriva na importância do sucesso da leitura na criança principalmente, mas também nos nossos jovens ‘’deficientes’’ e nos já adultos. O papel daqueles não foge a falar com as crianças, fazê-las falar, colocá-las em situação de busca de conhecimentos, de tratamento da informação, de resolução de problemas, de avaliação crítica de ações e julgamentos, e sobretudo ler, ler, ler.

Temos em cena três atores para a aprendizagem da leitura: o protagonista aprendiz, os pais e a escola. Reconhecer cada qual seu papel é facilitar a aquisição de processos cognitivos implicados na arte de ler e garantir a liberdade de exercício dessa arte. Neste livro, com trabalho de natureza hercúlea, próprio de quem conhece bem o ofício, José Morais (de origem portuguesa, é professor da Faculdade de Ciências Psicológicas e da Educação, da Universidade de Bruxelas e colaborador regular em universidades americanas e brasileiras) aponta ser aquele reconhecimento a decisão que transforma o ser e a sociedade em que se vive, que humaniza, que prepara o homem a decidir e a enxergar que essa liberdade está para a democracia que todos podemos concretizar.

A Arte de Ler
Autor: José Morais
Editora: Unesp
Preço sugerido: R$ 45,00
Resenha: Ludmila Maurer

Viva o povo brasileiro

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Para quem gosta da história das maravilhas da Língua Portuguesa, Viva o povo brasileiro enumera ao leitor motivos de grandeza poética, sintaxe trovadoresca, metafísica assumida num mundo simbólico novo de narratividade múltipla, regida por outros deuses, que não apenas seu criador João Ubaldo Ribeiro.

Para quem gosta de estilo grandiloquente que se converta em ironia, a visão baianocêntrica de João Ubaldo traz ao leitor o romance que encarna o nascimento mítico de uma nação, o simulacro do mundo cuja leitura suscita uma epifania, segundo apresentação de Geraldo Carneiro.

A vivificação da história da Bahia através do conjunto de múltiplas vozes tem seu encanto simbólico, por exemplo, na fala de Dadinha, que resgata crenças populares; com Patrício Macário e seu discurso do Bem e do Mal, do Espírito do Homem como invenção necessária porque se anseia a perfeição – que é o Bem; Maria da Fé, personificação da fé na justiça, da voz do povo que deseja a não escravidão, a Terra Livre; na voz de Nonô, um verdadeiro momento de escárnio frente a uma condição político-econômico-social tal qual à linguagem peculiar ao povo.

Com o anti-herói Perilo Ambrósio, o leitor tenderá à lembrança dos caraíbas, no ano de 1530, quando a colonização do Brasil se iniciou na prática. Perceberá que a ingênua aliança dos nossos Tupiniquins com os profetas (portugueses) na guerra contra os tupinambás-tamoios, aliados dos franceses, só os trouxe à extinção por volta de 1570. Amarga ironia constituída na maior e mais grandiosa chance de “redenção” – que os europeus jamais desfrutaram, e que trataram de desperdiçar irremediavelmente.

O que aflora e cresce junto à leitura das vibrantes 700 páginas de Viva o povo brasileiro é um sentimento forte de brasilidade, de reconhecimento de uma grande mestiçagem que finca nossa identidade neste torrão natal. Indo além, parece ser tal reconhecimento de grande benesse para se arraigar a alteridade.

Segundo o próprio Ubaldo, ninguém sabe nada (ponto de partida para O albatroz azul, mais recente romance do escritor), mas é certo afirmar que o olho vê, a lembrança revê, e o homem - João Ubaldo Ribeiro -transvê (Manoel de Barros). Eis a literatura, brasileira, cumprindo seu papel.

Editora: Nova Fronteira
Preço sugerido: R$ 74,90
Resenha: Ludmila Maurer